segunda-feira, 24 de março de 2008

O que é o tempo?

Ano: 1986
Eu com 2 anos, ela com 7.

Ano: 2008
Eu com 24 anos, ela com 29.



- Apostila -
Álvaro de Campos

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!
Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.
Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...
Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!
(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)
Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Uma opinião muito particular

- Acerca do filme: "Obrigado por fumar": um desabafo de uma semanticista formal sobre um filme cujo foco é a linguagem enquanto instrumento de poder argumentativo -


Eu não me atreveria, mas bem que gostaria.
O filme te seduz a discutir - e escrever - sobre o discurso argumentativo.
Desde nossas aulas de redação nos deparamos com o desafio infernal que é argumentar a favor de uma tese (em preterimento de outra). Aborto, eutanásia, pena de morte, reforma agrária, voto obrigatório, legalização da maconha. Temas que nos infernizaram e nos infernizam. Ninguém vai deixar que você simplesmente diga: concordo! "Mas e os direitos humanos?"; "E a liberdade de escolha?"; "blá,blá"; "bló,bló". Você vai ter que argumentar. (Vale dizer que os temas se atualizam: alimentos trangênicos, pesquisa com célula tronco...)
E aí o filme me deixou com a sensação de que estamos, na verdade, fazendo o que o seu personagem principal condena: negociando, ao invés de argumentando. Em alguns pontos, ainda bem. Imaginem na contenda Israel X Palestina se houvesse uma tentativa de solução dos conflitos por argumentação ao invés de negociação? Bom, a negociação não vem dando certo também, mas enfim...
Voltando à questão da argumentação, ficou em mim a vontade de discutir o poder da linguagem no processo persuasivo. As escolhas que fiz durante meus estudos de lingüística, que me levaram ao estudo formal da sentença em preterimento ao estudo do texto (suas formas e funções), me fazem me calar. Não vou dar pitaco na forma como foi conduzida a questão do poder argumentativo no filme. Convido alguém a fazê-lo. (Sr. Galileo?)
Mais deixo aqui expressa minha vontade de discutir, debater, e (por que não?), de argumentar.


- Feito o desabafo, reservo este espaço e a minha energia para falar do filme -

Sinopse (copiada de um site): Comédia satírica que acompanha Nick Naylor, porta-voz de uma grande companhia de tabaco, que enquanto tenta passar uma boa imagem do cigarro, tenta ao mesmo tempo ser modelo para seu jovem filho.

Comentário (meu): Do mesmo diretor do recente (e premiado) "Juno" Jason Reitman, "Obrigado por fumar" é garantia de bom roteiro (que neste filme é assinado por Reitman também) e bons diálogos.
(Ah, recomendo "Juno" exatamento por isso: seus diálogos bem contruídos)

Veja aqui uma cena do filme:

terça-feira, 18 de março de 2008

Hino Dos Malucos

A nós, um Hino!
Ouça a música aqui:

Hino Dos Malucos
Rita Lee
Composição: Rita Lee/ Fernanda Young / Alexandre Machado/ Roberto de Carvalho

Nós, os malucos, vamos lutar
Pra nesse estado continuar
Nunca sensatos nem condizentes
Mas parecemos supercontentes
Nossos neurônios são esquisitos
Por isso estamos sempre aflitos
Vamos incertos
Pelo caminho
Nos comportando estranhos no ninho
Quando a solução se encontra, um maluco é do contra
Mas se vai por lado errado, um maluco vai do lado
Malucos, a nossa vida é dar bandeira
ligando a luz da cabeceira,
se a água pinga na torneira
Malucos, a nossa luta é abstrata
já que afundamos a fragata,
mas temos medo de barata
Nós, os malucos, temos um lema
Tudo na vida é um problema
Mas nunca tente nos acalmar
Pois um maluco pode surtar
Os nossos planos são absurdos
Tipo gritar no ouvido dos surdos
Mas todo mundo que é genial
Nunca é descrito como normal
Quando o papo se esgota,um maluco é poliglota
Mas se todo mundo grita,um maluco se irrita
Malucos, somos iguais a diferença
e todos temos uma crença:
seguir a lei jamais compensa
Malucos, somos a mola desse mundo,
mas nunca iremos muito a fundo
nesse dilema tão profundo
Malucos, a nossa vida é dar bandeira,
ligando a luz da cabeceira,
se a água pinga na torneira
Malucos, a nossa luta é abstrata,
já que afundamos a fragata,
mas temos medo de barata